Por Filipe França
Os textos foram escritos pelo Prof. Richard Miskolci. Ele é doutor em Sociologia e atualmente é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos.
O autor inicia o primeiro texto falando que no Brasil, um dos primeiros textos em português falando sobre o termo queer, foi publicado no ano de 2001. É o texto “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação”, de autoria da Prof.ª Guacira Lopes Louro. A acolhida da Teoria Queer por parte da Educação foi algo extremamente positivo, pois, ampliou o interesse por temas como sexualidade, normalização e controle social. Essa acolhida brasileira da Teoria Queer na área da Educação pode estar ligada a uma compreensível sensibilidade crítica de noss@s professor@s com relação às forças sociais que impõem, desde muito cedo, modelos de comportamento e padrões de identidade aos estudantes.
O autor levanta a seguinte questão: como incorporar o queer na Educação? Ele aponta que a proposta queer começa por fazer um diálogo com aquel@s que normalmente são desqualificados do processo educacional e também do resto da experiência de vida na sociedade. Hoje em dia, o caráter violento de socialização escolar recebeu o nome de bullying. Um olhar queer é um olhar insubordinado. É uma perspectiva comprometida com os sem poder, dominados e subalternizados.
Miskolci nos convida a pensar nas distinções arquitetônicas presentes nos banheiros masculinos e femininos. Essas distinções nos obrigam a descobrir a toda a hora o nosso gênero e a nossa sexualidade. Assim como a escola, o banheiro público é uma tecnologia que precisa ser repensada.
O autor menciona o termo abjeção, destacando que esse termo costuma lidar com o que há de mais íntimo em nós, daí ser compreensível que ela passe muito pela sexualidade. A abjeção se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar àquel@s que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política. A heteronormatividade também é problematizada no texto, pois, ela é a ordem sexual do presente fundada sobretudo no modelo heterossexual, familiar e reprodutivo.
Miskolci também traz para a discussão as distinções entre os termos diversidade e diferença. Para o autor, a diversidade expressa uma concepção estática de cultura. Já a diferença, afirma a necessidade de ir além da tolerância e da inclusão, reconhecendo o Outro como parte de nós.
O segunda texto é iniciado destacando o grande desafio da Educação repensar o que é educar, como educar e para que educar. Para o autor é fundamental a compreensão da Educação para muito além da escola. Isso pressupõe identificar e desconstruir os pressupostos de neutralidade sob os quais se assentaram durante tanto tempo o processo educativo e o espaço escolar. O olhar d@s professor@s precisa enxergar as interações que acontecem fora dos muros do espaço escolar.
Estranhar os materiais de trabalho na escola também consiste em uma atitude queer. Podemos nos apoderar desses materiais como base para refletirmos e questionarmos o que vem estampado nas páginas dos livros, como por exemplo, o que vem impresso em um livro de alfabetização.
Miskolci destaca dois aspectos interessantes quando falamos em uma Educação queer. Primeiro, a superação da visão de sexualidade como algo biológico, apenas enquanto oportunidade de falar de DSTs e gravidez na adolescência. Segundo, superar o pensamento da educação sexual como maneira de ensinar com quem e como se relacionar sexualmente. Precisamos assumir o desafio de visualizar a sexualidade como algo cultural e que se relaciona com outros aspectos da nossa vida em sociedade.
A leitura dos textos nos conduz a pensar em uma Educação não normativa que vai além de compreender que existem famílias com dois pais ou com duas mães. Podemos questionar se realmente tod@s se casarão e/ou constituirão famílias, se o casamento é necessário para formar uma família, se o casamento é obrigatório, se viver sozinho é proibido, se as famílias fora do casamento são menos família...
O autor finaliza o texto enfatizando que @s professor@s podem se inspirar nas dissidências, resistências e no estranhamento para produzir o próprio educar. Ir além de reproduzir e ensinar a experiência da abjeção, em que o processo de construção do conhecimento pode ser um espaço de ressignificação do Outro e das diferenças.
MISKOLCI, Richard. Estranhando a Educação. In: _____. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica: UFOP, 2012, p. 35-49.
MISKOLCI, Richard. Um aprendizado pelas diferenças. In: _____. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica: UFOP, 2012, p. 51-63.
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